Wednesday, November 21, 2007

Era uma vez uma Ginginha...


O novo Portugal, das novas oportunidades, da banda larga e do plano tecnológico não suporta as imagens simbólicas do velho país, e muito menos um país à solta, livre, não controlado pelo Estado. Por isso, criou a ASAE, a nova PIDE do regime. Esta, no seu afã intratável, virou-se agora para o que ainda resta de pitoresco, neste país, e vai daí, fechou a Ginginha do Rossio, qual cão raivoso. Sim, a típica Ginginha do Rossio, numa operação de fiscalização a estabelecimentos de restauração e, pasme-se, de controlo de cidadãos estrangeiros, a que pomposamente chamou de “Amarula”. Motivo: por falta de condições “higiosanitárias e técnicofuncionais”, leia-se porque a Ginginha não tinha casa de banho. Bom senso é coisa que não existe na cabeça desta gente. Expliquemo-nos: o espaço, exíguo, não recebe mais do que 4 pessoas, quanto mais uma casa de banho!!! A construção da dita pode pura e simplesmente inviabilizar a continuidade de uma casa centenária, fundada em 1840, ponto de paragem obrigatório para quem quer experimentar um sabor tipicamente lisboeta. É claro que, para a ASAE, nada disto conta, e muito menos que o famoso licor já fosse servido em copos de plástico, com o fruto lá dentro, que é o que verdadeiramente interessa. O encerramento coercivo causou surpresa geral e deixou os donos de boca aberta. Os turistas, de guia de Lisboa em riste, bateram com o nariz na porta, literalmente. E assim assistimos, impávidos e serenos, à imposição de um Portugal asséptico, que despreza o direito de propriedade e as suas tradições (alfacinhas, neste caso), apenas porque estas lhe lembram um outro Portugal, “atrasado” e periférico, e do qual o novo Portugal tem vergonha, ou não incluiu na sua existência, citando José Gil. Isto sem um protesto sério em parte alguma, o que não anuncia nada de bom…

6 comments:

A Vilhena said...

Se a ASAE fosse a Madrid... fechava(m) a ASAE.

Álvaro Costa de Matos said...

@Nem mais!!! Obrigado pela ligação ao blog "Café Portugal", que já está nos meus "favoritos", e parabéns pelo vosso post, pertinente, q.b.

Luís Aguiar Santos said...

Bravo! A ASAE como nova PIDE dá que pensar...

m said...

A ASAE, as escutas, a DG Finanças, etc... é pena que os donos da Gingina não tenham um(a) priminho/a próximo /a de alguém do nosso (des)governo. Quem vai lucrar com a privatização da Estradas de Portugal não teve, certamente, este tipo de problemas.

PBB said...

Bilhete da Índia I

Caro Alfacinha,
Património não é só os Jerónimos ou a Torre de Belém, os Painéis de S. Vicente e os Coches! Acredita que ao fecharem a centenária Ginginha do Rossio estás a perder o teu Património! É a tua memória que se vai desvanecendo. Talvez, a favor de novos sabores, assépticos e descartáveis, gozados em centros comerciais artificiais e sem identidade. Claro, há reformas a fazer e muito a inovar, mas, não podemos exigir que este exíguo espaço funcione como um moderno bar. Pouco mais é que um quiosque de porta aberta à rua oferecendo-nos sabores e dois dedos de conversa, num convívio que é, também, a história da Cidade. Lamentemo-nos como a Maria Parda de Gil Vicente, porém, sóbrios e conscientes de que ficámos mais pobres.

Álvaro Costa de Matos said...

Catarina, Luís Aguiar Santos e PBB,

O "Calcanhar d'Aquiles" agradece os comentários, as simpáticas palavras (LAS), e as pertinentes achegas (PBB+Catarina). Abraço a todos.